Numa grande árvore, daquelas que a gente pode passar uma chuva e se refrescar no dia de calor, morava uma família de passarinhos.
Naquele dia, o Papai passarinho estava preparando, com cuidado, a última lição de treinamento dos seus filhotes. Ele já tinha ensinado a voar, a conseguir comida sozinhos, a escolher gravetinhos para a construção de um bom ninho, a achar água, essas coisas de passarinho.
Os filhotes, ansiosos por voar e ter aventuras, comeram muito rápido as suculentas lagartas e insetos que a mamãe passarinho tinha conseguido para eles e, fortalecidos, estavam prontos para os ensinos do Papai.
As aulas eram práticas, respeitando as habilidades de cada um. Quem avançava e fazia um bom vôo, por exemplo, era desafiado a fazer um vôo ainda mais alto. Se o vôo não fosse tão bom, o filhote era motivado a continuar tentando, sem desanimar, até conseguir.
Toda a família estava envolvida neste importante aprendizado. Afinal, preparar os filhotes é garantir a sobrevivência da espécie e Papai passarinho sabia muito bem disso, pois já havia vencido muitos dos desafios que um passarinho tem de enfrentar.
A delicadeza e pequenez dos passarinhos contrasta com o mundo grandioso dos humanos e dos predadores naturais. “Ainda bem que podemos voar acima deles!” - ensinou o Papai passarinho!
O que eles não imaginavam é que suas vidas iriam mudar radicalmente. Naquele dia, aquela linda família foi surpreendida por um ataque de pedras estilingadas de um grupo de garotos malvados que costumavam aterrorizar os passarinhos da região. As pedras que vinham de baixo para cima quebraram galhos, despedaçaram folhas e logo atingiu o ninho. O Papai tentou voar longe do ninho para atrair as pedras para o outro lado mas, nem assim, conseguiu proteger sua família.
Esquivou-se até onde pôde das pedras, mas logo foi alvejado e despencou árvore abaixo, caindo no chão. O mesmo aconteceu com a mamãe e dois dos filhotes, restando, apenas, o passarinho Zinho que, tendo aprendido a voar melhor que os seus irmãos, alcançou os galhos mais altos da grande árvore, ficando ali até que o ataque das pedras acabasse.
A última lição não chegou a ser ensinada pelo Papai passarinho, era a lição do canto. Um passarinho tem que aprender os vários tipos de cantos para se comunicar com os da sua espécie e com outros passarinhos também. O canto de alegria, o de perigo, o canto para atrair outros pássaros e até um canto especial para atrair a fêmea com quem o passarinho vai fazer uma nova família. O passarinho Zinho era, portanto, um passarinho que não cantava.
Silencioso e triste, Zinho permaneceu na grande árvore e não se arriscou mais a muitas aventuras. Ficava sempre nos arredores, temendo novos ataques.
Como não ouviam canto algum, os passarinhos que passavam por ali nunca se interessavam pela grande árvore. Afinal, se não há canto, não há pássaros, e se não há pássaros, não há nem bichinhos nem frutos bons de se comer. Por isso, o passarinho Zinho ficava sempre sozinho na árvore grande.
Certo dia, porém, quando Zinho se ajeitava para dormir, ouviu um barulho de algo caindo por entre os galhos da grande árvore até que, finalmente, chegou ao chão. Desconfiado, Zinho voou até lá para ver o que era. Pensem! Era um pássaro de asa machucada que, de tão cansado do esforço e da dor, tombara no chão. Zinho, então, falou baixinho:
- Coitado, mais um estilingado!
E solidário como seu Papai lhe ensinara a ser, carregou o passarinho para cima e o colocou num galho bem seguro, cheio de folhas novinhas. Depois, deu-lhe seiva da árvore e um pouco de orvalho para beber. E para comer, deu-lhe lagartinhas suculentas e insetos, tal como mamãe havia lhe ensinado.
Passados alguns dias, o pássaro machucado acordou, olhou ao redor e, percebendo que estava seguro, quentinho e de barriguinha cheia, começou a cantar bem alto, um canto lindo de alegria.
O Passarinho Zinho também ficou alegre quando ouviu aquele canto, pois viu que o pássaro já estava acordado e se sentindo mais forte. Em pouco tempo, estaria completamente curado, pensou ele.
Aproximando-se dele, disse que estava muito feliz por vê-lo melhor, e, em seguida, perguntou:
- Como devo chamá-lo?
- Pássaro Cantante! Foi você quem cuidou de mim? – perguntou o seu novo amigo.
- Fui eu, sim! Muito prazer, sou o Passarinho Zinho.
- Obrigado, amigo, como poderei recompensá-lo?
- Faça-me uma visita de vez em quando, pois sou muito solitário .
-Solitário, numa árvore deste tamanho?
- É que não sei cantar e isto que faz com que nenhum outro pássaro queira pousar por aqui.
E contou para o Pássaro Cantante toda a sua história triste, a tragédia ocorrida com a sua família e de como ficou órfão, pouco antes de aprender a lição de canto.
- Se for este o problema, Zinho, acho que posso ajudar. E a primeira coisa a fazer é mudar o seu discurso.
- Como assim? Não entendi!
- É que, para cantar, é preciso superar a dor e a tristeza de ter perdido sua família. Pare de falar dessa trágica história. Se fizer isso, irá cantar naturalmente, pois foi para cantar que você foi criado. Você precisa vencer o medo e sair daqui, ver tudo o que o Criador fez para que você desfrutasse e, depois, voltar no final do dia trazendo uma linda fêmea, construir seu ninho e trazer ainda mais alegria para este lugar, com a chegada dos barulhentos filhotes. Quando você se der conta, Zinho, esta árvore estará repleta de descendentes, muitos pássaros contentes e alegres povoando este lugar.
E puxando-o pela asa, gritou:
- Vamos lá, olhe para a frente, esqueça o passado e vamos lá, lá ,lá, laaaaaaaaaaaaa!
Graças às palavras do Pássaro Cantante, Zinho pediu ajuda ao Criador para perdoar ao menino humano que estinlingou sua família, agradeceu por estar vivo e por entender que há um propósito para ele existir. Em seguida, ensaiou suas primeiras notas e aprendeu a cantar.
Tudo estava acontecendo de acordo com o que o Pássaro Cantante havia lhe dito. Ele nascera para cantar e nada mais poderia impedi-lo de realizar aquilo.
Foi assim que o passarinho Zinho, alegre e agora também cantante, aceitou o conselho do seu amigo, construiu uma linda família que cresceu muito e acabou povoando a grande árvore, deixando-a mais alegre e cada vez atraindo mais vida para junto de si.



